segunda-feira, 1 de outubro de 2012

[Antropologia] Lévi-Strauss e a Antropologia Estrutural

Ao analisarmos a obra Antropologia Estrutural, percebe-se a objeção de Lévi-Strauss pelo cientificismo que consegue dar conta da variedade de conteúdo em lingüística e antropologia. O autor compara os sistemas fonológicos com o sistema de parentesco, sendo elaborados pelo espírito no estágio de pensamento inconsciente.

Ambos são elementos de significação, só atingindo a mesma sob a condição de se integrarem em sistemas. Em regiões afastadas do mundo e em sociedades profundamente diferentes de formas de parentesco, regras de casamento, atitudes identicamente prescritas entre certos tipos de parentes fazem crer que, em ambos os casos, os fenômenos observáveis resultam do jogo de leis gerais, mas ocultas. Como os estudos estruturais propõem-se a isolar níveis significativos, cada tipo de estudo estrutural aspira à autonomia, à independência em relação a todos os demais. 

Desse modo, o objetivo é construir modelos cujas propriedades sejam passíveis de serem comparadas com outros modelos. Assim, utiliza o exemplo da diferença de tempo entre história (tempo estatístico: não reversível e de orientação determinada) com o tempo da etnologia (mecânico: reversível e não cumulativo). Na análise estrutural o método é sempre comparativo: para que se possa tentar uma aproximação da noção de estrutura, inclusive a estrutura comum ao pensamento humano. 

A opção em um estado comparativo se dá em termos de recorte: o caso é apenas um, que deve ser estudado a fundo. Assim, seus elementos constitutivos estarão na escala do modelo projetado [mecânico] ou numa escala diferente [estatístico].

Um exemplo que pode ser dado para explicar essa integração vem do texto ‘’A Eficácia Simbólica’’.

Jovem Cuna
Lévi-Strauss tem como objetivo mostrar como se realiza um parto complicado entre os Cuna, que habitam o território da República do Panamá. A pedido da parteira na falta de êxito para se realizar o parto, o xamã (nele) é invocado. Há um canto feito pelo xamã que se inicia descrevendo a visita da parteira ao xamã, a partida dele para o local, sua chegada, os preparativos para o momento, invocações e confecção de imagens sagradas (nuchu). 

Essas imagens representam os espíritos protetores que o xamã tem como ajudantes para chegarem à morada de Muu (Potência que forma o feto). No caso, Muu é quem torna o parto complicado, pois se apoderou do purba (alma) da mãe. Visto isso, o canto representa a busca do purba perdido numa luta contra animais ferozes e noutra entre o xamã e os espíritos protetores contra Muu e suas filhas. Quando Muu é vencida, o purba é libertado, o parto acontece e volta a existir uma relação amistosa com Muu. O caminho de Muu e a morada de Muu referem-se à vagina e ao útero da mulher grávida literalmente e não são um caminho e um local míticos. Purba como já visto, significa alma que é possuída por tudo e pode ser roubada, já a niga consiste na força vital, somente animais e humanos possuem e não pode ser roubada. Cada parte do corpo tem seu purba particular. O niga equivale à noção de organismo contendo todos os purba de maneira harmoniosa. No caso, o purba do útero é o responsável pela desordem. Muu e suas filhas é que destroem a harmonia anterior dos purba, pois estes são aprisionados. 

Nas palavras do próprio Lévi-Strauss: ‘’Muu não é, pois, uma força essencialmente má, é uma força transviada.’’ (p. 219) E: ‘’Mas ao mesmo tempo, Muu deve  permanecer no lugar: pois a expedição, libertadora dos purba, corre o risco de provocar a evasão de Muu pelo caminho deixado aberto provisoriamente.’’ (p. 219) Enfim, é através de representações psicológicas que pretende-se resolver um problema fisiológico. Observa Lévi-Strauss: A cura consistiria, pois, em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membro de uma sociedade que acredita. 



Os espíritos protetores e os espíritos malfazejos, os monstros sobrenaturais e os animais mágicos, fazem parte de um sistema coerente que fundamenta a concepção indígena do universo. A doente os aceita, ou, mais exatamente, ela não os pôs jamais em dúvida. O que ela não aceita são dores incoerentes e arbitrárias, que constituem um elemento estranho ao seu sistema, mas que, por apelo ao mito, o xamã vai reintegrar num conjunto onde todos os elementos se apóiam mutuamente. Mas a doente, tendo compreendido, não se resigna apenas: ela sara. Sendo assim, Lévi-Strauss faz observação da comparação entre xamanismo e psicanálise, onde ambos os casos a consciência é levada à conflitos inconscientes  e a cura acontece quando há uma experiência específica que finda a doença. Segundo Lévi-Strauss: ‘’O xamã tem o mesmo duplo papel que o psicanalista: Um primeiro papel – de auditor para o psicanalista, e de orador para o xamã – estabelece uma relação imediata com a consciência (e mediata com o inconsciente) do doente.’’(p.228) A cura xamanística e a cura psicanalítica são as mesmas, entretanto existem inversões como: Na cura xamanística há um mito social recebido do exterior e não tem ligação alguma com um estado pessoal do passado; no outro lado, na psicanálise, o mito é individual pois é formado por elementos da vida pessoal do paciente. Na cura xamanística quem fala e rege é o xamã, enquanto que na psicanálise quem fala e rege o problema é o paciente. 

Temos por exemplo, alguns distúrbios psicóticos que se tornam trabalho tanto para profissionais que lidam com remédios ou com palavras em nossa sociedade. Lembrando que o xamã não diferencia o orgânico do psíquico. E que em muitos outros distúrbios orgânicos, o fator psíquico pode ser a causa do problema, tal como a úlcera nervosa ou a gastrite nervosa. Observa-se também em diferentes religiões a força da crença como fator fundamental para a cura de uma enfermidade.


Referências
Lévi-Strauss, Claude. Antropologia Estrutural. Ed.Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: 2003.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

[Arte] Arte Hindu

O Tema da arte religiosa hindu é o Universo, e seu objetivo é unir os mundos material e espiritual. Os hindus acreditam que suas imagens sacras carregam um espirito que permeia a forma, mas que ele próprio é amorfo (que não tem forma determinada), por isso reverenciam uma essência espiritual inerente à imagem, superior à sua forma externa terrena. Os ícones podem ser intencionalmente escurecidos com fumaça ou escondidos por roupas, ainda que, as escrituras sugiram que é a beleza da forma e da fisionomia da imagem que atrai a divindade que a habita.

O devoto hindu ganha prestigio espiritual por meio do darshan (numa tradução literal, o gesto de ver ou estar na presença de uma imagem sagrada). Ao contemplar a imagem de um deus, esteja ela visível ou não, o espectador recebe um pouco do poder da divindade. Os hindus também acreditam que há uma relação entre a caridade e o mérito espiritual, e os fiéis, prometem fazer doações para a divindade ou um templo no caso de o deus realizar seus desejos.

Detalhe externo do Templo Kandariya Mahadeva (c. 1000)

Do século IV ao século XII, a escultura em templos e a iconografia exerceram um papel fundamental na devoção ortodoxa hindu. A arte hindu tem uma estética que envolve a comunicação do bhava (humor), da beleza e do rasa (gosto), e as imagens sacras hindu têm uma linguagem que inclui formas humanas, símbolos e uma tendência a multiplicidade. As paredes externas das construções, como o templo Kandariya Mahadeva, são cobertas com entalhes exuberantes e às vezes eróticas representações de divindades e suas companheiras. Sacerdotes hindus, por meio de completos rituais de consagração e devoção diária, mantêm a presença espiritual no tempo e nas imagens. Além de criar obras de arte destinadas aos templos, os artistas hindus produziam uma incrível variedade de objetos, como rosários de contas, kolams, ou digramas, e artefatos para relicários em vilarejos ou à beira da estrada. 

Vishnu e suas encarnações (c. século X)
A fé hindu está centrada na relação íntima com um deus ou deusa, escolhidos entre várias divindades distintas. No hinduísmo, Ishvar é um dos vários nomes atribuídos a Deus, mas essa divindade única, invisível  transcendente e poderosa é remota e impessoal demais para a representação artística. Em vez de Ishvar, os hindus retratam a Trimurti (trindade) dos principais deuses: Vishnu, o mantenedor ou protetor; Shiva, o destruidor ou transformador; e Brahma, o criador. O deus Vishnu, responsável por manter a ordem do Universo, é retratado como um rei coroado e segura um emblema em cada um dos seus quatro braços: a concha (que representa o som primordial), o disco (que o associa ao Sol e seu poder real), a flor de lótus (que simboliza a florescência do Universo) e o bastão (que expressa a autoridade real).

Deusas são adoradas pelos hindus e retratadas frequentemente na arte hindu. Cada deus tem uma ou mais esposas, sendo que as esposas de Vishnu são as deus Lakshmi e Bhudevi. Ainda mais populares são as divindades femininas, independentes e mais ambivalentes, entre elas as esposas de Shiva, Kali e Durga. Kali é conhecida por sua língua comprida, seu colar de crânios, corpo escuro e dentes de vampiro. Apesar de sua assustadora aparência, ela é reverenciada como uma grande protetora. No hinduísmo, o poder inerente e a presença de uma divindade são mais importantes do que sua aparência externa repulsiva. 

Brahma, Durga, Kali e Shiva (de cima para baixo, da esquerda para a direita)

A arte sacra hindu tenta ver o invisível e transcender a realidade de Deus. Ela atribui uma alma a todos os objetos da vida cotidiana, envolvendo-os com uma sensação milagrosa e uma relação extremamente sofisticada entre formas e ideias. O hinduísmo, e por consequência sua arte, é flexível e impressionante.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

[Cinema] Uma visita aos clássicos: Robocop

A algumas semanas atrás quando vi o novo "Vingador do futuro" no cinema, percebi que no decorrer de minha vida acabei deixando passar diversos filmes "clássicos" de lado, já que de certa forma nem sabia da existência de um filme original do "vingador do futuro", e quando assistia "Os mercenários 2" comecei a fazer uma lista desses filmes de ação que deixei passar. 

Nessa lista se encontram filmes como Highlander, Rocky Balboa, Rambo, Maquina Mortífera, dentre muitos outros. Muitos que eu até tenho lembranças de ter visto quando criança, mas sendo incapaz de recordá-los por completo. 

Comecei minha lista assistindo o primeiro "Predador" com Schwarzenegger. Um desses filmes que hoje em dia eu nem consideraria um "bom filme" e nem se quer pararia para ver, pois estou cheio de pré-conceitos acerca da indústria cinematografia. Ao assistir essa pérola do cinema, percebi uma coisa que estava deixando passar, além de arte, cinema também é entretenimento. Parece bobo afirmar isso agora, mas talvez isso me salve de continuar achando que não existe mais nada de bom por ai a fora.

Era preciso parar de tentar analisar os filmes, e simplesmente curti-los. Levar em consideração o ano em que foram produzidos tais filmes. O contexto da época, as técnicas, os recursos, etc. Depois de feita essa triagem inicial, comecei a curtir mais os filmes.

Em sequência, me debrucei em Robocop, tendo assistido o primeiro e o segundo, e com planos para ver o terceiro. Percebi que novamente um remake estava sendo produzido e eu me encontraria sem ter visto os originais. Robocop já foi uma experiência fantástica, puro entretenimento, me senti exatamente quando me sentia saindo do cinema e achando que era um pirata ou um super-herói, totalmente encantado. Me perguntei durante todo o primeiro filme "nossa como eu nunca tinha parado para ver esse filme quando criança, o Robo teria sido um dos meus heróis favoritos, e não uma aberração esquisita. (Quando estava brincando com meus bonecos, o robocop sempre era um dos vilões principais.)

O filme não é nada de mais, mas tem diversos elementos incríveis. Os noticiários e as propagandas que passam ao longo do filme são de uma acides incrível. Os temas políticos discutidos no filme são pertinentes até os dias de hoje. 



Afinal a especulação imobiliária e a guerra contra as drogas não são temas pertinentes? Os vilões (a grande corporação PCO) de Robocop queriam destruir a cidade e reconstruí-la do zero, sem pensar nos moradores, pensando unicamente nos lucros. Vendendo a cidade aos traficantes, criando os robos para dizimar quem fosse contra aos seus desejos. 

Ultraviolento! Sádico! Porem o lado psicológico do agente Murphy, é uma das coisas mais belas e interessantes no filme.Não discuto sobre a "ficção cientifica" e se seria possível um morto ainda ter emoções ou sentimentos, se poderia sonhar e ter desejos de vingança. Antigamente para mim, estes aspectos no robocop teriam me feito apontar falhas no roteiro, mas afinal, eu liguei o "dane-se" e vamos direto a diversão!

Decidi então que irei trazer ao café com uma certa frequência alguns desses filmes clássicos que ando assistindo, e não pretendo ficar unicamente no campo dos "clássicos de ação", pretendo visitar alguns títulos do Western e dos filmes de guerra.

domingo, 23 de setembro de 2012

[Música] Covers que deram certo! XII

E seguimos com mais uma edição de "Covers que deram certo!" Já estamos no XII post!

1. Owen Pallett - Hard to explain (versão original: The Strokes)


Owen Pallett (multi instrumentista canadense) foi convidado pela gravadora Stereogum para gravar o cover em comemoração aos 10 anos do álbum de lançamento "Is This It" da banda The Strokes. O resultado não poderia ser diferente: uma música super agradável e belissima!

2. Birdy - Skinny Love (versão original: Bon Iver)


Birdy é a nova aposta do momento! A artista tem apenas 15 anos e uma voz linda! A artista ficou conhecida no ano passado depois de lançar o cover dessa música. A música estourou nas rádios britânicas e foi parar em um episódio da séria de TV “The Vampire Diaries”.

3. The Black Keys - Dearest (versão original: Buddy Holly)


A dupla americana foi convidada para participar de um CD tributo ao Buddy Holly em junho de 2011. "Rave On Buddy Holly" é uma coletânea com vários artistas feita pela Fantasy Records/Concord Music Group e Hear Music . O título do álbum refere-se a música "Rave On", um dos seus maiores sucessos. A  música "Dearest", executada pelo The Black Keys, recebeu o prêmio de Melhor Performance Duo/Grupo Pop na premiação do 54º Grammy.

4. Pearl Jam - Mother (versão original: Pink Floyd)


Pearl Jam, em participação no programa "Late Night with Jimmy Fallon" (talk show americano) em setembro de 2011, homenageou a banda Pink Floyd, cantando um dos seus grandes clássicos: Mother. A música, que faz parte do disco super conceituado The Wall é uma das faixas mais bonitas e introspectivas do Pink Floyd. E Eddie Vedder com sua banda, conseguiu captar bem a emoção e executar o cover muito bem. Uma versão acústica bem agradável de ouvir.


Músicas originais:




sexta-feira, 21 de setembro de 2012

[Sociologia] Amor Líquido

(Depois de Medo Líquido, texto do sociólogo Zygmunt Bauman já postado aqui no blog, segue outra analise de um dos autores mais lidos do século XXI)


"Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida... nem na futura!" - Soren Kierkegaard

Bauman em seu livro “Amor Líquido” procura investigar, porque as relações humanas estão cada vez mais flexíveis, gerando níveis de insegurança que aumentam a cada dia. Os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em “rede” (exemplo da internet através de bate-papo, email ou celular através de mensagens de texto) que podem ser desmanchados a qualquer momento e muito facilmente, sendo esse contato apenas virtual, as pessoas não sabem mais como manter um relacionamento em longo prazo, e também se privam de algumas situações consideradas problemáticas, algo como “... comer o bolo e ao mesmo tempo conservá-lo; desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer sem oprimir...” (Bauman, 2003. p.9). E isso não acorre apenas nas relações amorosas e vínculos familiares, mas entre os seres humanos de uma maneira geral. Amar diz respeito à auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a – ciumentamente – guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade.

Se um estranho cumprimenta outro na rua, o outro além de não responder o cumprimento, ainda sente-se estranho, talvez ofendido ou até pensa, “que pessoa esquisita”. As pessoas não se sentem à vontade na presença de um estranho, quanto mais cumprimentando alguém que não conhecem. Outro exemplo é o fato de quase ninguém ajudar um mendigo ou um estranho na rua. As pessoas têm medo, tanto por causa da violência, talvez sofrida por eles, quanto pela repercussão dos meios de comunicação que cada vez mais “apavoram” os seus usuários com notícias que envolvem apenas as coisas ruins feitas pelos próprios seres humanos. Esta dificuldade está ligada à nova situação que, no mundo Ocidental, se criou por causa das grandes migrações, por meio das quais milhões de pessoas emigram dos países pobres em busca de condições de vida melhor nos países ricos. E, assim, os migrantes são considerados “forasteiros”, “estranhos”, “diversos”, “desconhecidos”, que produzem medo. Lidar com os “estranhos” está se tornando o grande problema dos moradores das cidades dos países ricos, que não sabem como lidar com tantas pessoas “diferentes” Então, como não ter medo?

Os relacionamentos em geral, estão sendo tratados como mercadorias. “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a "experiência amorosa" à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” (Idem, p.22). Se existe algum defeito, podem ser trocadas por outras, mas não há garantia de que gostem do novo produto ou que possam receber seu dinheiro de volta. Hoje em dia com toda a força do capitalismo e a sua capacidade de manipulação para convencer o individuo a sempre trocar pelo mais novo e eficaz faz com que automóveis, computadores, telefones celulares e outros bem duráveis em bom estado e em bom funcionamento sejam trocados como um monte de lixo no momento em que aparecem versões mais atualizadas. E assim acontece com os relacionamentos, se não há satisfação, troca-se e ninguém sofre. Também existem os “relacionamentos de bolso”, do tipo que se pode usar e dispor quando for necessário e depois tornar a guardar para ser utilizado numa outra ocasião. Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante. Essa razão nega direitos aos vínculos especiais ou temporais. Eles não têm necessidade ou uso que possam ser justificados pela racionalidade moderna dos consumidores. E, também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam. É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homem consumidor. Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. È provável que se pense duas vezes antes de assinar, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente – o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e, portanto também a mais angustiante e estressante. "Eles não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal que se espera que proporcionem - alegrias de uma espécie que nenhum objeto de consumo, por mais engenhoso e sofisticado seja, pode proporcionar." (Ibidem, p.59).

A sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento, sendo eles cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos. Um vaso de cristal, na primeira queda, quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas. A definição romântica do amor está fora de moda. O amor verdadeiro em sua definição romântica foi rebaixado a diversos conjuntos de experiências vividas pelas pessoas, nas quais se referem utilizando a palavra amor. Noites avulsas de sexo são chamadas de “fazer amor”. Atualmente é muito fácil de dizer “eu te amo”, pois não existe mais a responsabilidade de estar mesmo amando, a palavra amor foi rotulada de uma forma em que as pessoas nem sabem direito o que sentem, não conseguem definir uma diferença entre amor e paixão, por exemplo.  Como diz o autor, “Amar é querer gerar e procriar”, e assim o amante busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar. Não são desejadas coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência.

            Os seres humanos têm medo de sofrer e pensam que não mantendo uma relação estável e duradoura, irão parar de sofrer ou diminuir a dor, trocando de parceiros, amigos, namorados, noivos, amantes, etc. O sofrimento e a solidão é o principal problema para as pessoas. Os seres humanos estão sendo ensinados a não se apegarem a nada, para não se sentirem sozinhos. A nossa sociedade moderna, não pensa mais na qualidade, mas sim na quantidade, quanto mais relacionamentos eu tiver, melhor, quanto mais dinheiro tiver, melhor. O consumismo é muito grande e as pessoas compram não por desejo ou necessidade, mas por impulso e isso ocorre também nas relações humanas. Outro problema que está na sociedade atual é a insegurança. Para sentirem-se seguras, as pessoas preferem se “encontrar” pela internet do que pessoalmente, assim, quando quiserem, podem apagar o que haviam escrito, ou simplesmente “deletar” um contato e facilmente dizer “adeus”. Os usuários dos recursos de namoro on-line podem namorar com segurança, protegidos por saberem que sempre podem retornar ao mercado para outra rodada de compras. Na Internet pode-se namorar sem medo de “repercussões” no mundo real. Para as pessoas de hoje sentirem-se seguras precisam ter sempre uma mão amiga, o socorro na aflição, o consolo na derrota e o aplauso na vitória e isso nem sempre iria ocorrer caso tivessem as mesmas pessoas ao seu lado. No momento em que o outro não lhe dá a segurança que tanto precisa logo o mesmo é esquecido e substituído.


A verdade nasce do confronto entre crenças que resistem à conciliação e entre seus portadores relutantes em chegar a um acordo. Sem esse confronto, a idéia de “verdade” dificilmente teria ocorrido, para começo de conversa. “Saber como ir em frente” seria tudo de que se precisaria – e o ambiente em que se faz necessário “ir em frente”, a menos que desafiado e assim tornado “estranho” e esvaziado de sua “auto-evidência”. Debater a verdade é uma resposta à “dissonância cognitiva”, Ela é instigada pelo impulso a desvalorizar outra leitura do ambiente e/ou outra prescrição de ação que lance dúvida sobre a leitura e a rotina de ação de alguém. Esse impulso crescerá de intensidade quanto mais às objeções/obstáculos se tornarem difíceis de abafar. O interesse em debater a verdade, e o principal propósito de sua auto-afirmação, é prova de que o parceiro/adversário está errado e de que, portanto, as objeções são inválidas e podem ser desprezadas. “Quando se trata de discutir a verdade, as chances de uma “comunicação não distorcida”, tal como foi postula por Jüguen Habermas, se tornam diminutivas. Os protagonistas dificilmente resistirão à tentação de recorrer a outros meios, mais efetivos, que não a lógica e o poder persuasivo dos seus argumentos.” (Ibidem, p.180).

O ideal de Bauman se insere na mesma vertente daqueles que acreditam que a humanidade tende para unidade. É o ideal da modernidade sólida de que se pode produzir um padrão universal, uma governança universal, um mundo em que não há separação entre os homens. O autor acredita que é necessário e possível apostar em um projeto de civilização em que as relações sociais podem ser transformadas na direção de uma boa sociedade. Com relação ao amor e aos relacionamentos que se caracterizam pela curta duração nos tempos líquidos. Em um tempo em que não se pode contar com nenhuma instituição de longa permanência, mas em que a vida individual está cada vez mais longa, talvez valesse a pena investir no amor durável, constante e compromissado.


Referências


BAUMAN, ZYGMUNT. Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora., 2004
FERNANDES, JORGE MARQUES HENRIQUES. A Fragilidade dos Laços Humanos. Disponível em: http://site.unitau.br/scripts/prppg/humanas/download/Humanas%202005%202/Pdf/9%BA%20art..pdf (acesso: 19/04/12)
BORDON, GIOCONDA. A Fragilidade dos Laços Humanos. Disponível em: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=123&titulo=A_fragilidade_dos_lacos_humanos (acesso: 18/04/12)