Ambos são elementos de significação, só atingindo a mesma sob a condição de se integrarem em sistemas. Em regiões afastadas do mundo e em sociedades profundamente diferentes de formas de parentesco, regras de casamento, atitudes identicamente prescritas entre certos tipos de parentes fazem crer que, em ambos os casos, os fenômenos observáveis resultam do jogo de leis gerais, mas ocultas. Como os estudos estruturais propõem-se a isolar níveis significativos, cada tipo de estudo estrutural aspira à autonomia, à independência em relação a todos os demais.
Desse modo, o objetivo é construir modelos cujas propriedades sejam passíveis de serem comparadas com outros modelos. Assim, utiliza o exemplo da diferença de tempo entre história (tempo estatístico: não reversível e de orientação determinada) com o tempo da etnologia (mecânico: reversível e não cumulativo). Na análise estrutural o método é sempre comparativo: para que se possa tentar uma aproximação da noção de estrutura, inclusive a estrutura comum ao pensamento humano.
A opção em um estado comparativo se dá em termos de recorte: o caso é apenas um, que deve ser estudado a fundo. Assim, seus elementos constitutivos estarão na escala do modelo projetado [mecânico] ou numa escala diferente [estatístico].
Um exemplo que pode ser dado para explicar essa integração vem do texto ‘’A Eficácia Simbólica’’.
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| Jovem Cuna |
Lévi-Strauss tem como objetivo mostrar como se realiza um parto complicado entre os Cuna, que habitam o território da República do Panamá. A pedido da parteira na falta de êxito para se realizar o parto, o xamã (nele) é invocado. Há um canto feito pelo xamã que se inicia descrevendo a visita da parteira ao xamã, a partida dele para o local, sua chegada, os preparativos para o momento, invocações e confecção de imagens sagradas (nuchu).
Essas imagens representam os espíritos protetores que o xamã tem como ajudantes para chegarem à morada de Muu (Potência que forma o feto). No caso, Muu é quem torna o parto complicado, pois se apoderou do purba (alma) da mãe. Visto isso, o canto representa a busca do purba perdido numa luta contra animais ferozes e noutra entre o xamã e os espíritos protetores contra Muu e suas filhas. Quando Muu é vencida, o purba é libertado, o parto acontece e volta a existir uma relação amistosa com Muu. O caminho de Muu e a morada de Muu referem-se à vagina e ao útero da mulher grávida literalmente e não são um caminho e um local míticos. Purba como já visto, significa alma que é possuída por tudo e pode ser roubada, já a niga consiste na força vital, somente animais e humanos possuem e não pode ser roubada. Cada parte do corpo tem seu purba particular. O niga equivale à noção de organismo contendo todos os purba de maneira harmoniosa. No caso, o purba do útero é o responsável pela desordem. Muu e suas filhas é que destroem a harmonia anterior dos purba, pois estes são aprisionados.
Nas palavras do próprio Lévi-Strauss: ‘’Muu não é, pois, uma força essencialmente má, é uma força transviada.’’ (p. 219) E: ‘’Mas ao mesmo tempo, Muu deve permanecer no lugar: pois a expedição, libertadora dos purba, corre o risco de provocar a evasão de Muu pelo caminho deixado aberto provisoriamente.’’ (p. 219) Enfim, é através de representações psicológicas que pretende-se resolver um problema fisiológico. Observa Lévi-Strauss: A cura consistiria, pois, em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membro de uma sociedade que acredita.
Os espíritos protetores e os espíritos malfazejos, os monstros sobrenaturais e os animais mágicos, fazem parte de um sistema coerente que fundamenta a concepção indígena do universo. A doente os aceita, ou, mais exatamente, ela não os pôs jamais em dúvida. O que ela não aceita são dores incoerentes e arbitrárias, que constituem um elemento estranho ao seu sistema, mas que, por apelo ao mito, o xamã vai reintegrar num conjunto onde todos os elementos se apóiam mutuamente. Mas a doente, tendo compreendido, não se resigna apenas: ela sara. Sendo assim, Lévi-Strauss faz observação da comparação entre xamanismo e psicanálise, onde ambos os casos a consciência é levada à conflitos inconscientes e a cura acontece quando há uma experiência específica que finda a doença. Segundo Lévi-Strauss: ‘’O xamã tem o mesmo duplo papel que o psicanalista: Um primeiro papel – de auditor para o psicanalista, e de orador para o xamã – estabelece uma relação imediata com a consciência (e mediata com o inconsciente) do doente.’’(p.228) A cura xamanística e a cura psicanalítica são as mesmas, entretanto existem inversões como: Na cura xamanística há um mito social recebido do exterior e não tem ligação alguma com um estado pessoal do passado; no outro lado, na psicanálise, o mito é individual pois é formado por elementos da vida pessoal do paciente. Na cura xamanística quem fala e rege é o xamã, enquanto que na psicanálise quem fala e rege o problema é o paciente.
Temos por exemplo, alguns distúrbios psicóticos que se tornam trabalho tanto para profissionais que lidam com remédios ou com palavras em nossa sociedade. Lembrando que o xamã não diferencia o orgânico do psíquico. E que em muitos outros distúrbios orgânicos, o fator psíquico pode ser a causa do problema, tal como a úlcera nervosa ou a gastrite nervosa. Observa-se também em diferentes religiões a força da crença como fator fundamental para a cura de uma enfermidade.
Referências
Lévi-Strauss, Claude. Antropologia Estrutural. Ed.Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: 2003.






