quarta-feira, 15 de abril de 2015

[Música] Playing for Change

O projeto “Playing for Change” teve seu início quando Mark Johnson e Whitney Kroenke começaram a rodar pelas ruas da América em 2002 com um estúdio móvel e câmeras “em busca de inspiração e das batidas do coração do povo.”, resultando no documentário “Cinematic Discovery of street musicians”. Alguns anos depois, em 2005, andando pelas ruas de Santa Monica na Califórnia, encontraram o musico Roger Ridley executando uma versão de Stand by me, e perguntaram para ele se poderiam voltar no dia seguinte com o equipamento de gravação. Quando voltaram fizeram uma pergunta para Roger: “Porque com uma voz como a sua, você está cantando nas ruas?” e a resposta: “Cara, meu trabalho é com a alegria, Eu estou com o povo.” foi uma das principais razões para o que aconteceria em seguida.



O encontro deu a ideia para Mark e Whitney de rodar não apenas pela América, e sim por todos os continentes, levando a música para outros músicos que nunca haviam tocado juntos na vidam poderem ouvir em fones de ouvido e acompanhar a canção executada por Roger. Passando por diversas cidades como New Orleans na Louisiana onde encontram Grandpa Elliott, Washboard Chaz, Roberto Luti. E muitos outros musicistas em diversas outras cidades, como Barcelona na Espanha, Guguletu na África do sul, Kathmandu no Nepal, etc. 

Dentre os músicos participantes do projeto, além dos inúmeros músicos descobertos pelo caminho, encontram-se alguns conhecidos do grande público, como Bono Vox, Manu Chao, Keith Richards e o próprio Bob Marley que aparece em homenagem póstuma na versão de “War/no more trouble” música do próprio Bob.



E assim surgiu o Songs Around the World.  Que já possui 3 volumes lançados em, 2009, 2011 e 2014, além de dispor diversas outras músicas/vídeos do estilo “ao redor do mundo” no canal deles no youtube e/ou Vimeo. O playing for Change conta também com vídeos de apresentações a céu aberto de diversos grupos mundo a fora, na série “Live outside”. E apresentações ao vivo da Playing for Change Band formada em 2007.


Ainda dentro do formato “Songs Around the World”, tem algumas músicas de países específicos como Terra del olvido com mais de 80 músicos por toda a Colômbia,  e Guantanamera em Cuba. E também existem as versões onde podemos encontrar coros infantis de diversos países e crianças executando os instrumentos, geralmente acompanhadas de um ou outro membro efetivo da Playing for Change Band.



A mensagem do Playing for change é clara:  a música tem poder de unificar o mundo em uma grande nação, que fala e ouve uma única língua, a música. Eles acreditam no poder transformador da música, e a entendem como um veiculo de extremo poder para transmitir suas mensagens de paz e harmonia entre os povos.




Bob Marley é uma das principais influências e inspirações do projeto. As mensagens das músicas do Bob que foram escolhidas para integrar o PFC songs around the world são importantes para essa construção de identidade do Playing for change,  canções que falam da igualdade entre os seres humanos.



O documentário “Peace through music” mostra todo esse processo, de viajar com um estúdio móvel e câmeras para captar as emoções e a mensagem dos músicos ao redor do globo. Narram todas as dificuldades de se aproximarem das outras culturas, mais afastadas que tinham em comum apenas a música e a vontade de transformar o mundo. Contam como foi complicado gravar em Barcelona, cidade rica de músicos de rua, que fazem uma completa festa, e por toda a confusão gerada entorno, bem como se preocupar com a captação das imagens e da gravação do áudio e cuidar do equipamento durante o processo.

O Documentário é dedicado a Roger Ridley que morreu pouco tempo depois da música “Stand by me” ficar pronta. Sua esposa nem fazia ideia da magnitude do projeto até que, num dia de luto, arrumando os pertences do marido, deu play sem querer na televisão, e viu o Roger  cantando com músicos de todo o mundo.



Desse projeto todo surgiu o Playing for change foundation, uma organização sem fins lucrativos que na primavera de 2009 inaugurou sua primeira escola de música e arte na cidade de Guguletu na África do sul. Dedicada para as crianças ao redor do mundo, para que elas possam ter esperança e inspiração para o futuro do nosso planeta. Hoje contam com 9 projetos ao redor do mundo, e um para chegar no Brasil, em Curitiba

segunda-feira, 13 de abril de 2015

[Cinema] Little Birds

Não podemos negar que o Netflix é uma ferramenta extremamente poderosa, diversos filmes e séries a distância de um toque do mouse. Ele salva diversos momentos de tédio, e serve como fonte de novas descobertas, seus produtos originais, por exemplo, são um grande alivio para o cenário das produções atuais. No entanto, às vezes nos deparamos com filmes mais tediosos do que os nossos próprios tédios.

Little Birds, filme escrito e dirigido por Elgin James, conta a história de duas melhores amigas de uma pequena cidade do litoral da Califórnia, desolada pelo avanço da civilização, poluída, e repleta de ruínas, que saem em uma aventura para testar os limites da própria liberdade. Oriundas de famílias desfaceladas, com o histórico de mortes recentes, Lily e Alison sentem-se deslocadas daquela sociedade. Alison é uma garota meiga que adora cavalos e perdeu a mãe para o câncer. Lily, é o desequilíbrio da relação das duas amigas, seu pai cometeu suicídio e deixou a família completamente desamparada.



Os subsídios que nos são dados para os problemas familiares, o descontrole e descompasso emocional, não são lá muito bem amarrados no decorrer do filme. As cenas que vão ilustrando e construindo os personagens são seguidas de diversas imagens de preenchimento, dando uma sensação de vazio no filme. 

A fotografia dessas imagens de preenchimento, deixa bastante a desejar, pois são cenários interessantes, que ilustram bem essa sociedade desajustada e problemática. Porem, muitas vezes fica-se a impressão de que a fotografia poderia ter sido muito melhor explorada, com outros enquadramentos e enfoques que pudessem valorizar mais as cenas, dar mais sentimento aos momentos de silêncio e reflexão da vida. Isso não significa que a fotografia seja de todo ruim, o controle de foco em alguns diálogos são bem executados, e dão a profundidade de campo e distanciamento pretendida pela técnica.


A trilha sonora, parece ter sido escolhida para forçar os momentos de tristeza e solidão, o que em alguns momentos acabam ampliando o tédio perante o filme. 


Quando no desenrolar dos fatos, as meninas largam tudo e fogem para Los  Angeles para encontrar alguns garotos tão desajustados quanto elas e ter uma pequena aventura. Obviamente, por todos os clichês esperados neste tipo de filme, em algum momento vai dar errado. A amizade e confiança são postas a prova. Na descoberta de novos horizontes, o choque entre realidade e sonho de liberdade, formam um contraste entre o problema real a ser enfrentado e a inconsequência juvenil de que pode-se fazer tudo e sair impune. 

domingo, 5 de abril de 2015

[Cinema] Boyhood

Boyhood(2014), filme dirigido por Richard Linklater responsável por filmes como a trilogia Antes do amanhecer(1995), Antes do por do sol(2004) e Antes da meia noite(2013), que possui uma proposta semelhante: a passagem de tempo, que no caso da trilogia o tempo passa entre os filmes, não durante eles. Outros filmes dirigidos por Linklater, Escola de Rock(2003), Jovens, loucos e rebeldes(1993).


O que podemos realmente falar de Boyhood é como o filme foi produzido ao longo de 12 anos, com o crescimento e amadurecimento real dos seus personagens principais, suas descobertas, frustrações, desentendimentos com a vida, etc. E as referências temporais como as musicas do momento, o que torna a trilha sonora relativamente agradável. Desenhos e programas de TV, acontecimentos históricos como o 11 de setembro e a guerra do Iraque, gírias, costumes, pontuam de forma simples a passagem de tempo que sem elas poderia ser uma história contada sobre qualquer época.



A história não tem nada de original, no entanto os fatos são todos muito bem amarrados. Fica uma sensação de tédio, mas a adolescência é exatamente entediante, nada acontece de tão grandioso, e vamos ser sinceros quantos filmes sobre o assunto já foram produzidos ao longo dos anos? Quantos são bons e quantos envelheceram? No caso de Boyhood, ele entrou na história do cinema e não será esquecido, e provavelmente não envelhecerá.



Porém não passa disso, mais um filme que tenta expressar o “american way of life”, e de certa forma tenta nos empurrar goela abaixo algumas das convicções políticas e de costumes do povo norte americano.

No filme vemos o crescimento de Mason, um garoto sonhador que passa por diversos episódios em sua adolescência, dos padrastos alcoólatras e abusivos que vão afundando a família, das descobertas amorosas, das mudanças de cidade e a reconstrução e manutenção das amizades. O Ator Ellar Coltrane faz um excelente trabalho no decorrer dos 12 anos de produção do filme, imerso no personagem, que não cresce apenas por fora, mas evolui psicologicamente também.

Enquanto o filme vai se desenrolando, acabamos refletindo sobre a nossa própria vida, e como foi amadurecer e passar por diversos acontecimentos, e como lidamos com eles, e como ainda precisamos lidar, e aprender a seguir em frente, tudo segue o seu caminho, não importa a direção que tome.




Toda a repercussão que envolveu o filme na corrida para o Oscar de 2015, foi meramente especulação, pois o filme não merecia os prêmios das principais categorias como melhor diretor, filme ou roteiro original. Patricia Arquette recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

[Música] 20 anos sem Sérgio Sampaio

"Como é maiúsculo o artista e a sua canção", 15/5/94 há exatos vinte anos às cinco horas da manhã morria o grande compositor Sérgio Sampaio, de uma pancreatite crônica que lhe acompanhava desde meados da década de 70. Pode se dizer que sua carreira meteórica, do auge em o "Bloco na rua" aos diversos exemplares de "Sinceramente"jogados no lixo por estarem mofando nas lojas de disco, estava prestes a ser renovada. No final da década de 80 passou por tratamentos severos contra o abuso de álcool e podia ser dito sobre ele que estava curado tanto da bebedeira quanto da sua alcunha maldita. Já havia voltado a frequentar os palcos, e com diversas canções inéditas ia reconquistando tanto o público como a gravadora paulista "Baratos afins" que estava interessada em gravar um novo disco. Pouco antes de vir a óbito tinha gravado uma fita caseira com algumas dessas canções inéditas.



Alguns meses antes, tentava articular alguns shows em São Paulo para  ver se os donos de casas de show lembravam dele " meu público acha até que eu morri, como o Raulzito." Mas seus sonhos de finalmente voltar ao gosto popular não duraram muito, abatido pela doença acabou não conseguindo voltar a tocar em SP cidade que segundo ele "Não canto aí há 726 anos" e nem a concluir o disco.

Já escrevi um texto sobre a trajetória de Sérgio aqui no blog como vocês podem conferir clicando aqui: e de certa forma não voltei aqui para repetir o já referido. Vim Apenas me lamentar um pouco, desabafar, expressar minhas saudades por um dos compositores que mais respeito no cenário musical brasileiro.

"Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais

E morro quando adentro o gabinete

Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz"





E para aqueles interessados vai o link do documentário "Por um Sampaio teimoso"

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

[Antropologia] Lévi-Strauss e a Antropologia Estrutural

Ao analisarmos a obra Antropologia Estrutural, percebe-se a objeção de Lévi-Strauss pelo cientificismo que consegue dar conta da variedade de conteúdo em lingüística e antropologia. O autor compara os sistemas fonológicos com o sistema de parentesco, sendo elaborados pelo espírito no estágio de pensamento inconsciente.

Ambos são elementos de significação, só atingindo a mesma sob a condição de se integrarem em sistemas. Em regiões afastadas do mundo e em sociedades profundamente diferentes de formas de parentesco, regras de casamento, atitudes identicamente prescritas entre certos tipos de parentes fazem crer que, em ambos os casos, os fenômenos observáveis resultam do jogo de leis gerais, mas ocultas. Como os estudos estruturais propõem-se a isolar níveis significativos, cada tipo de estudo estrutural aspira à autonomia, à independência em relação a todos os demais. 

Desse modo, o objetivo é construir modelos cujas propriedades sejam passíveis de serem comparadas com outros modelos. Assim, utiliza o exemplo da diferença de tempo entre história (tempo estatístico: não reversível e de orientação determinada) com o tempo da etnologia (mecânico: reversível e não cumulativo). Na análise estrutural o método é sempre comparativo: para que se possa tentar uma aproximação da noção de estrutura, inclusive a estrutura comum ao pensamento humano. 

A opção em um estado comparativo se dá em termos de recorte: o caso é apenas um, que deve ser estudado a fundo. Assim, seus elementos constitutivos estarão na escala do modelo projetado [mecânico] ou numa escala diferente [estatístico].

Um exemplo que pode ser dado para explicar essa integração vem do texto ‘’A Eficácia Simbólica’’.

Jovem Cuna
Lévi-Strauss tem como objetivo mostrar como se realiza um parto complicado entre os Cuna, que habitam o território da República do Panamá. A pedido da parteira na falta de êxito para se realizar o parto, o xamã (nele) é invocado. Há um canto feito pelo xamã que se inicia descrevendo a visita da parteira ao xamã, a partida dele para o local, sua chegada, os preparativos para o momento, invocações e confecção de imagens sagradas (nuchu). 

Essas imagens representam os espíritos protetores que o xamã tem como ajudantes para chegarem à morada de Muu (Potência que forma o feto). No caso, Muu é quem torna o parto complicado, pois se apoderou do purba (alma) da mãe. Visto isso, o canto representa a busca do purba perdido numa luta contra animais ferozes e noutra entre o xamã e os espíritos protetores contra Muu e suas filhas. Quando Muu é vencida, o purba é libertado, o parto acontece e volta a existir uma relação amistosa com Muu. O caminho de Muu e a morada de Muu referem-se à vagina e ao útero da mulher grávida literalmente e não são um caminho e um local míticos. Purba como já visto, significa alma que é possuída por tudo e pode ser roubada, já a niga consiste na força vital, somente animais e humanos possuem e não pode ser roubada. Cada parte do corpo tem seu purba particular. O niga equivale à noção de organismo contendo todos os purba de maneira harmoniosa. No caso, o purba do útero é o responsável pela desordem. Muu e suas filhas é que destroem a harmonia anterior dos purba, pois estes são aprisionados. 

Nas palavras do próprio Lévi-Strauss: ‘’Muu não é, pois, uma força essencialmente má, é uma força transviada.’’ (p. 219) E: ‘’Mas ao mesmo tempo, Muu deve  permanecer no lugar: pois a expedição, libertadora dos purba, corre o risco de provocar a evasão de Muu pelo caminho deixado aberto provisoriamente.’’ (p. 219) Enfim, é através de representações psicológicas que pretende-se resolver um problema fisiológico. Observa Lévi-Strauss: A cura consistiria, pois, em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membro de uma sociedade que acredita. 



Os espíritos protetores e os espíritos malfazejos, os monstros sobrenaturais e os animais mágicos, fazem parte de um sistema coerente que fundamenta a concepção indígena do universo. A doente os aceita, ou, mais exatamente, ela não os pôs jamais em dúvida. O que ela não aceita são dores incoerentes e arbitrárias, que constituem um elemento estranho ao seu sistema, mas que, por apelo ao mito, o xamã vai reintegrar num conjunto onde todos os elementos se apóiam mutuamente. Mas a doente, tendo compreendido, não se resigna apenas: ela sara. Sendo assim, Lévi-Strauss faz observação da comparação entre xamanismo e psicanálise, onde ambos os casos a consciência é levada à conflitos inconscientes  e a cura acontece quando há uma experiência específica que finda a doença. Segundo Lévi-Strauss: ‘’O xamã tem o mesmo duplo papel que o psicanalista: Um primeiro papel – de auditor para o psicanalista, e de orador para o xamã – estabelece uma relação imediata com a consciência (e mediata com o inconsciente) do doente.’’(p.228) A cura xamanística e a cura psicanalítica são as mesmas, entretanto existem inversões como: Na cura xamanística há um mito social recebido do exterior e não tem ligação alguma com um estado pessoal do passado; no outro lado, na psicanálise, o mito é individual pois é formado por elementos da vida pessoal do paciente. Na cura xamanística quem fala e rege é o xamã, enquanto que na psicanálise quem fala e rege o problema é o paciente. 

Temos por exemplo, alguns distúrbios psicóticos que se tornam trabalho tanto para profissionais que lidam com remédios ou com palavras em nossa sociedade. Lembrando que o xamã não diferencia o orgânico do psíquico. E que em muitos outros distúrbios orgânicos, o fator psíquico pode ser a causa do problema, tal como a úlcera nervosa ou a gastrite nervosa. Observa-se também em diferentes religiões a força da crença como fator fundamental para a cura de uma enfermidade.


Referências
Lévi-Strauss, Claude. Antropologia Estrutural. Ed.Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: 2003.