Paulo Leminski, Poeta curitibano, marginal, adorador e divulgador do Haikai(poema curto de origem japonesa).Foi um dos poetas mais ativos e importantes das décadas de 70 e 80, morrendo dos seus excessos com o álcool, em 1989 aos 45 anos.
Escolhi um pequeno poema do livro Distraído venceremos (citado no texto passado "Minha estante") para fazer uma pequena análise. "Aço em flor" é o poema responsável pela minha paixão por poesia, foi também o primeiro que aprendi a recitar.
"Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz."
Ao transcrever a poesia para o blog, não pude reproduzir fielmente a disposição dos versos na página. Ela não é uma poesia metrificada, como os tradicionais sonetos, pois seu ritmo está totalmente pautado na pontuação. Então o primeiro elemento a ser observado, é a falta de pontos finais no decorrer das sentenças, a constante utilização das virgulas deixa o texto mais fluido e menos trancado. O único ponto acompanha o "capaz" dando enfase em quem não conhece a arte Zen dos samurais japoneses em comporem belíssimos haikais. A referencia ao Haikai nesse poema é obvia, e remete o renomado poeta japonês Bashô, samurai que dedicou anos de sua vida em produzir e difundir a arte dos poemas.
Existe uma forte aliteração na consoante em /F/, começamos a perceber nos três principais substantivos "flor", "faca" e "fera", e na utilização do verbo "fazer" do verso seguinte "tanto fez como tanto faz", e novamente no quarto verso, quando os substantivos começam a ser repetidos o acréscimo de "forte" pontua a aliteração. A constância do uso do /F/ se encerra no antônimo da tônica do verso anterior, não só o sentido dos adjetivos é o oposto, como os sentidos se completam desta forma, a flor não poderia ser feita se não fosse numa "fraca carne". A consoante só volta a ser usada para finalizar o poema, no corte da lâmina( "fio"), a aliteração tem fim.
Leminski repete muitas palavras no poema, nas 39 palavras(excluindo os artigos) utiliza apenas três verbos, mudando apenas a flexão do verbo fazer, "fez", "faz". Os outros dois se repetem, no caso do verbo "ver" o verso inteiro se repete "Quem nunca viu" que apesar de ser uma interrogação, o constante uso das virgulas acaba tornando toda a interrogação em uma derradeira afirmação.
De nada adianta, o uso rebuscado das palavras nem uma métrica complexa, o poeta curitibano nos deixa claro que a poesia é simples, e tem que ser. A complexidade dos poemas, afasta muitos leitores em potencial, e este poema é a perfeita explicação do que pode ser feito com a poesia. E foi desta maneira que ele me encantou com sua poesia carregada de sentidos, porem de aparente simplicidade. Foi desta forma que eu percebi que poderia também ser um poeta, e carregar esta cruz defeituosa que os poetas carregam nas costas. A poesia precisa ser inútil para ter utilidade!